Mário Cabrita Gil

DISCURSOS - II          

        ANOS 00 ANOS 90 a imagem das palavras lisboa 94 - capital europeia da cultura contacto expo 98 discursos - I discursos - II discursos - III ANOS 80 BIOGRAFIA

1999

"Discursos" - Exposição em Leiria comissariada por Ana David, para o Museu da Imagem.

Corpos de Prata

Por JOÃO PINHARANDA

Domingo, 5 de Dezembro de 1999

De prata porque a perfeição do ouro não resiste à perfeição da realidade. Mesmo assim, de prata porque se a idade que vivemos é bem mais de

bronze que de um nobre metal, é ainda com o espelho branco da prata que podemos sonhar a eternidade do que é efémero. De prata,

finalmente, porque na história velha da fotografia os sais de prata tiveram decisiva importância na fixação e revelação das imagens.

Finalmente, reduzidas a uma dimensão exponível - embora grandes (122x156 cm) o seu tamanho actual não é comparável com o que tomaram

aquando da sua integração no projecto da Sétima Colina (no âmbito da programação de iniciativas para a Lisboa Capital Cultural, 1994). Então,

um restrito conjunto de outdoors subia do Cais do Sodré ao Príncipe Real, acompanhando a marcha de renovação urbana aí praticada. Dois

bailarinos nos quais se confronta, em oposição, a cor da pele e o sexo, ensaiam a nu, poses fragmentares (nunca qualquer rosto se identifica ou

corpo se desnuda inteiro) de tensão evidente. Nelas se revela um jogo de domínio e poder, de sedução e afecto. Sem nunca se desviar de um

esteticismo equilibrado, sem nunca criar rupturas com a elegância da composição e a suavidade do imaginário comum as fotografias de Mário

Cabrita Gil procuram um equilíbrio classicizante.

E confrontam-se, ainda nesta exposição, com uma série anterior (datada de 1986). Aí o fotógrafo dava conta dos protagonistas da movida

lisboeta dos anos 80. A série teve uma exposição na galeria Cómicos (actual Luís Serpa) e foi editada em livro sob o título "Idade da Prata".

Tratava-se, noutra dimensão, de falar do que não podendo também ser ouro desejava evitar a decadência do bronze... São retratos de gente

que passou ou que ficou, que deu a cara e a vontade criativa a uma situação já histórica. Os corpos dos bailarinos não envelhecerão nunca - por

não terem alma. Os heróis concretos de uma década já estão velhos quando posam para o fotógrafo - por esse golpe de alma sobrevivem.

 

E-Mail

 

English